sábado, 12 de fevereiro de 2011

Voluntários passeiam com onças em parque florestal da Bolívia

Além de passar por risco, pessoas têm de pagar pela experiência.
ONG defende preservação, mas ambientalistas criticam iniciativa.

Do New York Times Por Simon Romero, Noah Friedman-Rudovsky e Sean Patrick Farrell
Em plena selva boliviana, uma organização não governamental mantém um abrigo para animais que atrai voluntários interessados em viver perigosamente. São pessoas que apreciam passear na floresta com uma onça ou um jaguar na coleira, como se estivessem dando uma voltinha no parque com seu cãozinho de estimação.
"Tivemos muita sorte até agora de não ter acontecido acidentes sérios”, diz Robert Thoren, gerente da ONG Inti Wara Yassi. “Ninguém perdeu o braço ou a perna. Na verdade, com os felinos, não tivemos nenhum ferimento grave. Ser voluntário aqui é tão perigoso quanto no Sudão”, compara.Além do risco, há o investimento: os voluntários pagam US$ 10 por dia para cuidar dos animais abrigados pela ONG na reserva de Ambue Ari, no nordeste da Bolívia. A entidade diz que o local é a última opção para animais que não têm mais para onde ir. São felinos, capivaras e macacos que geralmente sofreram maus tratos dos donos ou foram resgatados do mercado ilegal.
As manhãs começam com uma cantoria em grupo e, depois, todos saem para o trabalho. A maior atração do lugar é a oportunidade de poder passear com um grande felino, sem precisar de nenhum treinamento especial. “Esse é um dos poucos lugares do mundo em que se pode ser voluntário tendo pouca ou nenhuma experiência com animais”, diz o voluntário Tanner Seibel, que admite não ter experiência alguma.
Com as feras na coleira, eles se embrenham na floresta usando apenas uma rede protetora na cabeça, para evitar picadas de insetos. “Passear com uma onça é uma experiência incrível. Fazer isso todo dia, então, é uma dádiva”, exulta Gill Maxwell, coordenadora dos voluntários da ONG.
Nos nove anos de existência da reserva, não foi registrada nenhuma morte. “São animais grandes, que têm muita força. É claro que dá um pouco de medo, assusta, porque eles podem machucar feio, mas não é isso o que tentam fazer, na verdade. São mais curiosos e brincalhões que qualquer outra coisa”, diz Tanner Seibel.Mas animais selvagens mantidos em cativeiro, tratados por voluntários sem experiência, preocupam muitos ambientalistas e biólogos. “O problema com lugares como esse é que eles atraem uma publicidade enorme, porque oferecem a chance de um passeio com esses felinos. Mas, na verdade, pouco se faz para preservá-los nos locais onde isso precisa ser feito, nas áreas protegidas e de risco ao redor do mundo”, critica Luke Hunter, vice-presidente executivo da Panthera, outra ONG ambientalista.
“A grande maioria das pessoas como eu, cientistas conservacionistas radicais, que passam a vida trabalhando com felinos, diria que abrigos como esse não ajudam muito a preservar o animal que dizem estar protegendo”, desaprova Hunter.
Mas muitos voluntários alegam que seu trabalho é essencial para os animais, embora o considerem mal interpretado. “É uma experiência difícil de descrever em palavras. Só quem passa por ela é que pode entender”, retruca Robert Thoren. “Quando voltamos para casa, não conseguimos explicar como é este lugar a quem nunca esteve aqui. É um mundo secreto e privilegiado, pois os animais nos permitem fazer parte dele.”

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